Pular para o conteúdo principal

Casa Varanda [Carla Juaçaba]


         Em meio a um pedaço de mata atlântica, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, uma casa de vidro paira a alguns centímetros do solo. A estrutura metálica, com pilares metálicos espaçados a cada 6 metros, definindo uma planta retangular cujos detalhes são os mais simples possíveis, não deixa dúvidas quanto à referencia "miesiana" (notavelmente da Casa Farnsworth). Carla Juaçaba, jovem arquiteta carioca formada a pouco mais de uma década, não esconde suas referências e inspirações, que transparecem em seus poucos projetos de grande força.
         Se o exterior do edifício chama a atenção por suas similaridades com a obra do grande arquiteto alemão, é ao nos aproximarmos cada vez mais que podemos constatar o grande destaque do projeto: junções. Junções que delimitam massa e vazio, luz e sombra. Pela casa, em seus 24 metros de comprimento, corre de fora a fora uma clarabóia.



         A luz que entra por cima é o elemento que une todos os espaços, "desenhando" o sol em diferentes ângulos durante o dia. A distribuição programática é simples, com os quartos ocupando as extremidades da planta de pavimento único, delimitando a área central para o living e cozinha, chamada por Carla de "varanda".
         A casa foi projetada para a neta do grande arquiteto carioca Sérgio Bernardes, que a princípio queria uma casa similar à Casa Lota Macedo Soares, projetada por seu avô em 1951 (para ler sobre o projeto dessa residência em Petrópolis, clique aqui).
         Das referências ao projeto de Bernardes, ficou a cobertura de telha sanduíche de alumínio, que dividem o telhado em duas águas partindo da clarabóia.



         A cobertura projeta-se 1,50m para fora do perímetro da planta, configurando um beiral considerável, que protege as fachadas de vidro da insolação, e configura o ar de grande varanda à casa.
         As paredes de alvenaria, que dividem os quartos nas extremidades, são dispostas de tal maneira que não vedam completamente a vista. Sendo assim, não há portas dentro da casa (mesmo os banheiros ficam abertos).




         Não existem elementos que interfiram na visão que atravessa toda a casa. O elemento que traz privacidade à casa, não parte dela mesma, por meio de um elemento arquitetônico (janela, porta, muxarabi, brise, cortina, cobogó...), parte da própria natureza que a circunda, abraçando o terreno, antes uma clareira, protegendo a casa de vidro.
         O sistema construtivo evidencia isso, configurando grandes pórticos de teto a piso com a estrutura metálica. Elevada do solo cerca de 0,80m (para evitar o contato com o solo úmido), a laje do piso é formada por vigotas de concreto que se apoiam nas vigas metálicas em perfil I, que por sua vez se apoiam nos 8 pilares metálicos.


         A laje é concretada e revestida com piso cimentado. A estrutura é em aço corten, e teve a facilidade de ser erguida em apenas 15 dias. A cobertura foi montada em apenas 1 dia. A época da concepção do projeto (2005-2007), acabou por coincidir com o barateamento da estrutura metálica no mercado, que somado à facilidade e rapidez na montagem, levou a construção a custos bem mais em conta.
         A clarabóia se estrutura por meio de dois perfis metálicos horizontais em U.




         O jardim que cerca a casa é digno de elogios por sua beleza. A casa em momento algum mede forças com seu terreno, pelo contrário. Bonitas folhas cor-de-rosa de um jambeiro, cobrem um pedaço do solo. O mesmo solo que a residência tomou o cuidado de não tocar, seguindo a justificativa de que pequenas inundações ocorrem em períodos de chuva (já que o terreno fica próximo a áreas montanhosas).


         No entanto, acreditamos que o ato de erguer essa estrutura do solo não deve ser justificada apenas devido a inundações. Pelas entrevistas que deu (principalmente ao site [ENTRE]), Carla Juaçaba deixou a dica de três arquitetos com quem compartilha certos pensamentos: Sérgio Bernardes, Louis Kahn e o já citado Mies van der Rohe. Esses três grandes arquitetos possuem uma característica em comum, que é o magnífico esmero com que tratam os materiais e a maneira como estes de relacionam.


         Acreditamos que ato de elevar esse chão, um chão artificial construído pelo homem, é também maneira de elevar o espírito, ficar na ponta dos pés (sem se desprender do solo) em busca de algo que seria impossível da visada humana, e impossível do pavimento superior comum. A casa não faceia as copas das árvores, a casa é uma árvore, com 8 troncos de apoio, aberta à mata, fechada por esta.




Para mais imagens e informações, acesse o site da revista de arquitetura MDC, clicando aqui.
As fotos são de Fran Parente, cujo Flickr está aqui.
Mais informações também na Revista AU nº 166, Janeiro/2008.

Comentários