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Habitação 2/2: 3 Casas Novas

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Villa Dall'ava - 1991


         Quando um casal francês enviou uma carta a Rem Koolhaas e seu Office for Metropolitan Architecture (OMA), pediram ao arquiteto holandês que projetasse uma “casa de vidro com uma piscina no terraço”.
         O terreno, num subúrbio de arquitetura conservadora de Paris, propiciava uma oportunidade única. Em meio a casas antigas, de estilos arquitetônicos do passado, a nova casa seria chocante, da mesma maneira que a Torre Eiffel o havia sido um século atrás.
         Koolhaas trabalhou com o desnível acentuado, dividindo a residência em pontos diferentes que se unem para evidenciar o programa de necessidades da família: uma área social transparente, onde o vidro não seria um delimitador do espaço público e privado, mas sim um elemento de integração; dois “apartamentos”, quartos que serviriam o casal e a filha de maneira a não entrarem em choque, de maneira que os caminhos que levam a tais aposentos sejam de inúmeras possibilidades; a piscina no terraço, elemento que praticamente guiou a solução estrutural, e propiciou uma vista do centro de Paris invejável.



         A Villa Dall’ava não é apenas uma residência que explora e propõe releituras programáticas e estruturais do contemporâneo, mas é, em si, uma releitura da Villa Savoye de Le Corbusier. Todos os cinco pontos que o arquiteto moderno franco/suíço tornava físicos estão lá, re-estudados:

> Planta Livre: a liberdade com que o programa é resolvido, é fruto da inventividade do sistema estrutural da Villa Dall’ava, onde poucos pilares e vigas resolvem grandes cargas, num contraste entre os dois volumes prismáticos dos apartamentos, aqui uma clara homenagem à Villa Savoye, apenas com materialidade distinta (talvez numa provável crítica à Arquitetura Branca).

> Fachada Livre: Resultante do item anterior, não há uma hierarquia de fachadas, possibilitando transparência e leveza. Acontece um contraste entre diferentes materiais.

> Pilotis: Koolhaas transforma os pilotis ordenados métricamente, em música. Uma verdadeira floresta de pilotis verticalmente angulados de maneiras diferentes apóiam um dos volumes de apartamento.

> Terraço Jardim: Assim como na Villa Savoye de Corbusier, os volumes prismáticos possuem terraço jardim, interligados por uma grande piscina. A cobertura é tratada como uma fachada, um ambiente geralmente inutilizado, que possibilita vistas bonitas da cidade.

> Janelas em Banda: Estas estão lá, tanto nos volumes prismáticos, como nos planos que cortam a residência, contornando-a. A natureza do entorno enquadra os ambientes internos.





         A Villa Dall’ava teve um longo processo de construção, onde diversos imprevistos tornaram sua construção cara e polêmica. Os vizinhos não entendiam o que se estava ali construindo, e os mais conservadores protestavam contra a idéia de uma casa “sem telhado”.
         Rem Koolhaas fez sua atualização do moderno no subúrbio de Paris, tornando físicos, de maneira contemporânea, preceitos que revolucionaram a maneira de morar no Século XX.










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Casa em Aldeia da Serra/Casa Mariante - 2001


         Projeto do escritório paulista MMBB, formado por Fernando de Mello Franco, Marta Moreira, Milton Braga e, naquela época, também por Angelo Bucci. A Casa em Aldeia da Serra foi projetada num terreno peculiar, em aclive, de 20x40. Partindo da rua de forma ascendente, a topografia é interrompida por um vazio que gera um pequeno platô à frente do lote, que mais adiante continua até atingir oito metros de desnível.


         A volumetria da casa é marcante, com um prisma, de dimensões 16.20x16.20, que se eleva apoiado em apenas quatro pontos.
         O programa é distribuído em três pavimentos:
         >Pavimento Térreo: O nível da rua é parcialmente livre, já que apenas um dos cantos da área quadrada é ocupada (área de serviço e dependências dos empregados). O restante do espaço é usado como garagem. Essa característica é claramente modernista, já explorada à exaustão (talvez nem tanto como gostaríamos) em diversos projetos do Século XX, tendo sua mais conhecida aplicação na Villa Savoye.
         >Pavimento Superior: O nível intermediário concentra a maior parte do programa de necessidades da família Mariante (quartos, banheiros, cozinha, living) e é também o elemento de maior destaque do projeto. O pavimento, ele mesmo um prisma fechado com painéis de cimento prensado e madeira nas laterais (com janelas em fita, que se abrem utilizando um interessante sistema similar ao da régua paralela, com peitoril baixo), e grandes panos de vidro de fora a fora, se destaca facilmente no condomínio fechado em Aldeia da Serra, recheado de casas com "estilos". Tanto a solução volumétrica quanto a planta lembram as residências projetadas por Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha, com quem, aliás, o MMBB já fez parceria em vários projetos.
         >Terraço: O ato de liberar o térreo, e também de utilizar o terraço do edifício como pavimento, foi a maneira que os arquitetos encontraram de aproveitar ao máximo o terreno, gerando um espaço de lazer ligado por passarelas ao fundo do terreno e um espelho d’água que auxilia no conforto térmico da residência.





         Assim como na Villa Dall'ava de Koolhaas, a relação entre arquitetura e natureza acontece por meio de interfaces, seja na água da cobertura (mesmo que aqui não se possa nadar), seja na transparência permitida pelos panos de vidro, e pelo terreno ascendente.
         A circulação é outro ponto interessante. Acontece no centro da residência, onde aberturas enclausuram dois lances de escadas com iluminação zenital, que ligam os três pavimentos.





         O Percorrer, promenade onde o translúcido é literal neste condomínio fechado em Aldeia da Serra, causa choque com a idéia tradicionalista do morar. As atividades que acontecem na residência, principalmente na sala de estar/jantar e escritório, são escancaradas à vizinhança. A atitude projetual é reflexo, não somente da mente dos arquitetos, mas da coragem da família Mariante, que ousou questionar o modelo seguido por todas as demais casas daquele condomínio: um modelo onde o público e privado tem não apenas um abismo espesso de alvenaria e pequenas aberturas, mas também um abismo social, idealizado nos pastiches e detalhes ornamentais da arquitetura ultraeclética*.












         O sistema construtivo utilizado é um caso à parte, talvez merecedor de um post no futuro. Duas lajes nervuradas (como um waffle), construídas in loco utilizando fôrmas de plástico de 0.90x0.90 dão a leveza necessária para sustentar o prisma, apoiado em quatro pilares. A caixa d'água apoia-se na continuação de um dos quatro apoios.
         As alvenarias internas foram todas feitas em argamassa armada, todos os vidros não possuem caixilhos, correndo em trilhos. Os pisos internos são em granilite, e os externos em concreto lixado.




         Merece destaque o fato de que ao mesmo tempo que esse projeto em Aldeia da Serra estava sendo desenvolvido, o MMBB também projetava uma casa em Ribeirão Preto, que sendo irmã da Casa Mariante, possuí conceitos semelhantes adotados num contexto diferente.


         A Casa Mariante, construída nesse início de Século XXI, demonstra fortemente a idéia de que a Arquitetura deve ser um reflexo do contemporâneo. Sua materialidade e espacialidade torna-se real por meio de técnicas construtivas atuais.













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Hemeroscopium House - 2009


         Essa casa em Madri, Espanha, projetada pelo escritório Ensamble, utiliza peças pré-moldadas que, através de um sistema estrutural de travamento por empilhamento, foi construída em apenas 7 dias. O processo pode ser conferido no impressionante vídeo abaixo.

         “Hemeroscopium, para os gregos, é o lugar onde o sol se põe. Uma alusão a um lugar que existe apenas em nossa mente, em nossos sentidos, que é sempre mutante e efêmero, mas que não deixa de ser real”.
         O que parece ser um balanço instável é na verdade fruto de quase 1 ano de cálculos. A estrutura envolve o espaço como uma espiral, permitindo planos visuais que escapam.
         As peças empilhadas, que começam por vigas pesadas e vão se tornando cada vez mais leves, terminam novamente pesadas com uma pedra de granito de 20 toneladas em seu topo. Essa grossa e espessa casca de concreto armado é portanto como um sanduíche, composto por 7 peças no total.






         Como nas duas casas anteriores, as mais recentes técnicas construtivas são utilizadas para construir a habitação contemporânea.
         Novamente a relação com a natureza não é deixada em segundo plano. A Hemeroscopium House re-inventa a piscina da Villa Dall’ava de Koolhaas, com uma de suas duas piscinas não apenas elevada do chão, mas também em balanço, servindo ao mesmo tempo como elemento de conforto térmico (assim como na Casa em Aldeia da Serra) e lazer.





         Os grandes panos de vidro, vedação e transparência, são vazios dessa espiral, que acaba por envolver o espaço. O escritório Ensamble acaba por criar um projeto que sintetiza questões discutidas nas últimas décadas por meio de uma estrutura que, ao contrário das outras duas casas desse post, não se eleva do chão, mas parte deste, considerando o rés-do-chão e o pé direito infinito como delimitadores da criatividade humana.












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Veja mais em:
Habitação 1/2: 3 Casas Antigas

Imagens e informações-

Villa Dall'ava:
http://www.insanus.org/offset75/arquivos/2006_07.html
http://adeternumartarq.blogspot.com/2011/02/villa-dallava-de-rem-koolhaas.html
http://digitalplaces.wordpress.com/2011/03/04/villa-dallava-bryan-yang/
http://www.designtavern.com/2009/06/villa-dallava-paris-france/
http://www.aramplus.com/2008/02/rem-koolhaas-villa-dallava/
http://www.metapedia.com/wiki/index.php?title=Rel29-2
http://farm1.static.flickr.com/87/232376009_c88cfe7d28.jpg
http://3.bp.blogspot.com/_X9uQOPu_oJU/Sj6ugZe52_I/AAAAAAAAIKE/lkZ6xlwYI90/s1600-h/b-19851991.jpg
http://static.panoramio.com/photos/original/23960034.jpg
http://1.bp.blogspot.com/_d3A7I4o7epc/SKBr69i7e9I/AAAAAAAAAbQ/eFHh7Rt6Qrw/s1600-h/19_DallAva.jpg
http://d.hatena.ne.jp/n-291/20081124#p2
http://www.youtube.com/watch?v=aFJ71mYYMXI

Casa em Aldeia da Serra/Casa Mariante:
http://architecturelab.net/12/a-house-in-the-mountain-sao-paulo-by-mmbb-arquitetos/
http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/spbr-arquitetos-e-mmbb-arquitetos-residencia-barueri-sp-07-08-2003.html
http://www.arquitetosonline.com.br/material/lages.html
http://www.spbr.arq.br/
http://www.mmbb.com.br/
http://exteriorxinterior.blogspot.com/2009/06/residencia-em-aldeia-da-serra.html

Hemeroscopium House:
http://www.archdaily.com/16598/hemeroscopium-house-ensamble-studio/
http://www.youtube.com/watch?v=-WHdFVHfXOQ&feature=player_embedded
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=9JBzRkGIRJc

*ROZESTRATEN, Artur Simões. Ultraecletismo?. Arquitextos, São Paulo, 10.114, Vitruvius, nov 2009 http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.114/16

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