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Breve indagação (ou: Pequena charla: Casa Dobal)


"A fome é a fome, mas a fome que é saciada com carne cozida e consumida com faca e garfo é diferente da fome do que devora carne crua e a come com a mão, com unhas e dentes."
MARX, Karl. Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia Política. 1859, p. 8.


O que distingue boa arquitetura, de má arquitetura? Será que uma arquitetura considerada ruim, pode ser chamada de arquitetura, ou deve ser denominada "construção", como dizia Lucio Costa?
Talvez, a verdadeira pergunta a ser feita seja: o que define uma arquitetura?

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Casa Dobal, São Paulo (2007)
[Alejandro Aravena + SPBR]


Neste breve projeto, desenvolvido por dois escritórios, encontramos notável reflexão sobre conceitos bastante explorados em residências modernistas (principalmente brasileiras). O chileno Alejandro Aravena de um lado, e o brasileiro SPBR de outro (equipe que integra, dentre outros, o sempre competente arquiteto Angelo Bucci), esboçam uma proposta preliminar de residência para um terreno em bairro jardim, cidade de São Paulo.¹



O desafio se deu desde o início, já que o terreno não é vazio: uma casa térrea ocupa o lote (quase em sua totalidade, conforme descreve o memorial no site de Alejandro Aravena). Podendo ocupar os recuos laterais do esguio terreno de dimensões 14mX40m, e avaliando a possibilidade de aproveitar ou não a construção existente, a equipe decidiu pela proposta de demolição do imóvel, para que o térreo fosse aproveitado para o lazer e varanda, com grandes áreas de jardim.
Com a possibilidade de grandes vãos, aproveitando-se a hipótese de apoios laterais totais², um sobrado desfrutaria de melhor solução espacial para o programa da casa, com espaços livres e iluminados.



Para possibilitar melhor iluminação do pavimento térreo, e também do pavimento superior (fugindo do prisma asséptico), o volume do pavimento superior sofreu "escavações" ("carving", de acordo com o memorial de Aravena), de maneira a melhor aproveitar a iluminação e ventilação, beneficiando todos os ambientes do programa de necessidades. Os ângulos e quase curvas dos planos, além de serem inusitadas, são o resultado do estudo de insolação, necessário para não tornar o térreo um túnel ajardinado escuro.


A distinção entre térreo e 1º andar também denota a clara separação entre setores na casa (social e íntimo), ao mesmo tempo em que toma tal ação e a transforma no conceito norteador do projeto.
Uma simples reflexão, com poucos croquis e maquete, capazes de conversar com estudantes e profissionais, sobre quais atitudes se espera daquele que projeta.
Nesse nível básico de proposta, fica sublinhado na pequena charla chilena/brasileira o que separa arquitetura de construção, ou arquitetura boa de arquitetura ruim. O conteúdo de tão singelo estudo é o abrigo.


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Para ler mais sobre o projeto, e conferir as imagens e memorial, não deixe de acessar o site do escritório de Alejandro Aravena, clicando aqui.

¹ Não fica claro no memorial qual seria esse bairro. Pelo termo "bairro jardim", é possível ser algum dos bairros projetados pela Cia City, como Pacaembú ou Butantã.
² As empenas laterais cegas, sem recuos laterais, tem, principalmente em São Paulo, grande protagonismo nos projetos de residências modernas. A produtiva fase inicial do arquiteto Ruy Ohtake ilustra muito bem o conceito.

Comentários

  1. http://reporterbrasil.org.br/gentrificacao/blog/

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