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O legado silencioso de heróis [03]: Carlos Millan e a Residência Roberto Millan


         Talvez um dos arquitetos que melhor sintetiza as mudanças e vicissitudes que a arquitetura de São Paulo sofreu na década de 1950, através de uma obra curta em tempo, mas de qualidade inquestionável e atemporal. Este é Carlos Millan, um dos grandes heróis* da vanguarda de nossa arquitetura, personagem que transitou e gravitou em torno das duas principais instituições formadoras de conhecimento da arquitetura paulista da época: Mackenzie e USP.
         Seus primeiros projetos após a graduação mackenzista, intercalados com o trabalho na pioneira loja de mobiliário Branco e Preto, mostravam forte influência da arquitetura norte-americana, com grandes beirais, telhado aparente e detalhamento exaustivo de materiais, como pode ser visto, por exemplo, nos projetos para a Residência Tomás Marinho de Andrade (1953, claramente influenciada pela Casa Kaufmann de Richard Neutra) e Residência Oswaldo Mitsuo Fujiwara (1955, com exagerada especificação de materiais e dispendiosa execução). O gosto pelo detalhe e extinção de dúvidas projetivas através do desenho foi uma de suas marcas, e embora sua arquitetura sofresse de mutação perpétua, o detalhamento e soluções bem pensadas (ainda que mais sucintas e simplificadas) foram elementos sempre presentes em sua obra.
         A transição mais marcante em seus projetos, se dá no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, quando divide escritório junto com Joaquim Guedes. Sua arquitetura começa a sofrer forte influência da obra tardia de Le Corbusier (mesma referência para Guedes) e do pensamento e postura daquela geração paulista, engajada, em diversos aspectos, por Vilanova Artigas**. Como um "agente duplo", Millan começa a lecionar na FAUUSP, ao tempo em que já vinha dando aulas no Mackenzie.
         Nos 4 anos que antecedem seu falecimento (em 1964), Millan desenvolve seus trabalhos mais impressionantes, como o edifício dos Vestiários do Clube Paineiras do Morumbi (1961/1962), Residência Nadyr de Oliveira (1961) e Residência D´Elboux (1962, influenciada pela Residência Cunha Lima do amigo Joaquim Guedes). Porém, a obra que melhor resume o pensamento do arquiteto, em nossa opinião, é a residência que projetou para seu irmão Roberto Millan, em 1960.

*-*

Post 03:

Residência Roberto Millan (1960)
[Carlos Millan]


         Implantada em um grande lote de esquina, com uma chamativa empena cega voltada para a rua, essa casa projetada por Millan no começo da década de 1960 tornou-se uma das maiores referências da maneira paulista de interpretar o "Brutalismo"***. A pureza e o minimalismo com que o programa é concentrado em um volume único e prismático, sustentado por poucos pontos de apoio (apenas 8 pilares), balanços laterais, materialidade bruta, sem revestimentos, priorizando a estrutura de concreto armado como um exoesqueleto (pensada como pré-fabricada, porém executada com concreto usinado), com fechamentos, fenestrações e infraestruturas tratadas como peças industriais, vem da evolução do pensamento arquitetônico e diálogo daquela geração, criando enorme influência na arquitetura daquela década (idéias e posturas que iriam se cristalizar na obra de diversos arquitetos, como na de Paulo Mendes da Rocha, Sérgio Ferro, Rodrigo Lefévre, Décio Tozzi e dos já citados, influentes e influenciados, Joaquim Guedes e Vilanova Artigas).

A empena cega voltada para a rua.


Planta do pavimento térreo

         A compactação resultante da solução monolítica, acaba por liberar grande espaço do lote para lazer e jardim. Parte do térreo interno do edifício, com fechamento independente do volume elevado, possui pé direito duplo, relacionando o living com o escritório logo acima. Ao fazer isso, o arquiteto não segrega os dois pavimentos, aproveitando a relação entre ambos. É notável que mesmo possuindo duas escadas externas, exista nesse vazio uma terceira escada. O pavimento ainda possuí uma cozinha e lavanderia.
         Não é necessária uma análise profunda para perceber a maneira simples, porém eficiente, com que Millan organiza a casa em eixos de usos. A maioria das áreas "molhadas" da residência ficam voltadas a leste, de forma a simplificar e racionalizar a execução da hidráulica, resultando também numa elevação com simples detalhamento de caixilhos em fita.



Planta do pavimento superior

         No pavimento superior, a lógica da hidráulica é mantida, com todos os dormitórios voltados a oeste, com exceção do dormitório para empregados. Duas escadas externas, de desenhos levemente diferentes, permitem acesso aos dormitórios sem que o morador tenha que entrar no pavimento térreo. Essas escadas, de concreto aparente, e seus desenhos (dois lances intermediados por um patamar, com guarda-corpo também de concreto), seriam ainda muito relacionadas à arquitetura moderna de São Paulo naqueles anos.





         Os detalhes construtivos chamam a atenção, como o preenchimento cerâmico das lajes deixado aparente e todas as soluções estéticas provenientes disso (lâmpadas embutidas, arandelas de concreto, etc). O prisma superior tem fechamento de painéis fundidos de concreto, deixadas aparentes do lado de fora, e internamente são revestidas com placas de madeira pintadas de branco. A maneira como o arquiteto trata a luz nessa casa para seu irmão, parece ser uma mistura de soluções já antes utilizadas em outros projetos, com experimentações e idéias novas e inusitadas. Os pequenos tijolos de vidro colorido encaixados na alvenaria de blocos de concreto pintados de branco, são apenas um dos vários detalhes construtivos primorosos de Millan.







         Na cobertura da casa, pela primeira vez, o arquiteto utiliza um sistema diferente. Pedregulhos brancos cobrem a laje impermeabilizada, captando a água da chuva e a despejando para fora da cobertura através de gárgulas. No térreo, a água é recebida por espelhos d'água dispostos estrategicamente.





         Os caixilhos de ferro, revestidos com zarcão laranja, definem planos de abertura para noroeste. A alta incidência de sol é compensada por meio de portas venezianas internas de madeira, pintadas de azul, impedindo a incidência direta do sol, mas possibilitando a ventilação natural.



         A residência para Roberto Millan deu o tom dos trabalhos seguintes de Carlos. Seu repertório evoluiria constantemente, desenvolvendo uma linguagem que soma a experimentação com o detalhamento. Ao analisar as obras do arquiteto, existe sempre uma surpresa a cada projeto, uma forma inusitada, detalhe engenhoso, plantas bem resolvidas. A materialidade vai se tornando etérea, e ao final de sua curta carreira, Millan deixa um legado poderoso. Ainda hoje, 52 anos depois, essa casa de esquina impõe serena majestade a seu anacrônico entorno.



> Todas as fotografias pertencem ao arquiteto Sergio Matera, autor da dissertação de mestrado "Carlos Millan, um Estudo sobre a Produção em Arquitetura", defendida na FAUUSP em 2005. As fotografias e desenhos da Residência Roberto Millan presentes neste post, fazem parte da dissertação, que pode ser baixada e lida no seguinte link: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16133/tde-28062006-163436/pt-br.php
Sergio permitiu gentilmente que utilizássemos suas fotografias e desenhos, contribuindo gigantescamente para o valor de ineditismo da postagem. O texto de sua dissertação também teve (e tem) valor significante para o entendimento dos autores sobre o legado silencioso de Carlos Millan, contribuindo para o melhor entendimento da obra do arquiteto no escopo da arquitetura moderna brasileira.
Nossos sinceros agradecimentos a Sergio Matera, pela confiança e contribuição.


> ACAYABA, Marlene Milan. Residência Roberto Millan (1960). In:Residências em São Paulo: 1947-1975. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2011. 


* Para melhor entendimento da palavra "herói" utilizada, evitando conotações dissimuladas, leia a introdução do primeiro post da série, clicando aqui, ou no link no final da postagem.
** A relação de Carlos Millan e Vilanova Artigas é das mais intrigantes (como descreve Sergio Matera em sua já citada dissertação de mestrado). O respeito era mútuo, com algumas reservas referentes à posição de esquerda de ambos.
*** Para melhor compreensão, recomendamos a leitura do site Arquitetura Brutalista, de Ruth Verde Zein, além de seus vários textos no site Vitruvius, retirados de sua tese de mestrado e doutorado. Para isso, clique aqui.


Não deixe de ler também os dois primeiros posts dessa série, que pretende divulgar a excelente arquitetura esquecida e/ou pouco discutida de nosso país, clicando nos links abaixo:

Comentários

  1. Agradeço por todas as informações que foram postas neste site, pois me ajudou muito a entender este arquiteto incrível que é o Carlos Barjas Millan.

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